5.11.16

DAS COISAS QUE EU NUNCA DIGO...- #02 - VAMOS FALAR DE REPRESENTATIVIDADE?

Porque esses dias aconteceu uma coisa que me fez pensar em algo que eu já vinha ruminando há um tempo, e me deu uma vontade de escrever o que penso sobre o assunto... Portanto, como é de se esperar para essa tag: se segurem que lá vem textão!

Vamos falar de representatividade? 

Das Coisas Que Eu Nunca Digo #02 - Representatividade
Mas antes de falar sobre representatividade, vamos ver primeiro o sentido por trás da palavra racismo?
ra·cis·mo 
(raça + -ismo)

substantivo masculino

1. Teoria que defende a superioridade de um grupo sobre outrosbaseada num conceito de raçapreconizandoparticularmentea separação destes dentro de um país (segregação racialou mesmo visando o extermínio de uma minoria. 
2. Atitude hostil ou discriminatória em relação a um grupo de pessoas com características diferentes.notadamente etniareligiãoculturaetc.
(Fonte: Dicionário Priberan)

Pronto. Agora podemos começar a explanação. E aposto que você deve estar se perguntando "Afinal, o que uma coisa tem a ver com a outra?"

Tudo. Afinal, representatividade não existe onde existe racismo.
Mas calma que eu explico...

Desde criança sempre ouvi piadinhas, apelidinhos, brincadeiras de gosto duvidoso sobre algo que carrego não só estampado na cara como no meu DNA: minha ascendência asiática.

Dei o azar de sempre ter sido a "diferente" da turma na escola. Aquela que não era considerada bonitinha pelos menininhos, que alguns não queriam ter como amiga e que ganhava apelidinhos "carinhosos" como "zóio rasgado" por exemplo... isso no jardim, imaginem! Durante o ensino fundamental também não foi muito diferente, foi até pior se eu puxar pela memória e for sincera: teve um ano que repeti por não querer ir para a aula, por viver no banheiro chorando e consequentemente ir mal nos estudos. Naquela época não existia o termo bonito de hoje - o bullying - e tudo se resumia a rebeldia infantil mesmo... e mesmo assim, o bullying que sofria ao ser ofendida por minha ascendência oriental não justificava tamanha maldade nas palavras que ouvia. 

A coisa chegou ao auge junto com o ensino médio. Nessa época minha auto-estima já estava esmigalhada assim como meu coração, cheguei as vezes odiar o fato de ser como era: nikkei. Foi então que entrou em ação a orientação psicológica de uma profissional, onde durante um bom tempo, em várias sessões pude trabalhar a minha identidade, me aceitar e resgatar as minhas origens. Por mais que eu sempre tenha ouvido dentro de casa de que eu não devia me envergonhar da minha ascendência - pelo contrário - e que não era para ligar quando chegava em casa chorando por ter sido ofendida, que eu era superior a tanta ignorância e tudo o mais que os pais tentam dizer pros filhos se sentirem melhor, sinto que sem a ajuda da psicóloga não sei se conseguiria superar. As vezes é preciso o apoio de alguém de fora, não é?    

E o que  eu quero dizer com toda essa minha história? Que existe racismo contra orientais sim, só que ninguém se dá conta, ou finge que não vê. Um racismo velado, disfarçado de "brincadeirinha" quando alguém faz uma piadinha ou até mesmo uma pergunta idiota disfarçada de inocente do tipo "Na sua casa você come de palitinho ou talher?".  Mas oi?

No comecinho desse mês, o perfil da revista Glamour no Instagram, fez a seguinte postagem:

Instagram Glamour

Os comentários foram os mais diferenciados possíveis: houveram, claro, muitos asiáticos reclamando e xingando; Também houve quem tentou apaziguar a situação dizendo que não via nada de maldade; E houve quem dissesse que isso tudo era mimimi da nova geração... a repercussão chegou até a comunidade asiática americana.

Três dias depois, depois de muita ignorada e demência, veio uma "retratação":

Instagram Glamour

A emenda saiu pior que o soneto, e alguns comentários também... quem quiser ler com seus próprios olhos é só clicar aqui. Destaque para os comentários dessa @analuizatito que aparece na imagem, pois me fizeram sentir uma vergonha alheia estratosférica...
E tem uma coisa que andei percebendo e me deixa incrédula, é ver negros que acham que racismo é exclusividade da sua etnia querendo desmerecer a causa dos colegas. Não gente, não é! Empatia mandou beijos. E a história tá aí também para nos mostrar outros exemplos: Os campos de concentração nazistas na Alemanha eram movidos a que? Ou citando algo mais atual, o sofrimento dos refugiados sírios negados na Europa se deve a que? E o mais irônico dentro do contexto: já vi negro de preconceito com oriental, assim como o contrário também, infelizmente...
Pra esse pessoal, eu digo: Migos, me ajuda a te ajudarem! Estamos todos juntos na mesma causa, se é que ainda não perceberam...

"Mas afinal, cadê a parte da representatividade do post?"
É sobre isso que explico agora, aproveitando esse post da Glamour.

Uma revista voltada para o público feminino, em um país que abriga descendentes de várias etnias entre elas, a japonesa, publicar uma piadinha batida como essa sobre Japão pegou mal. Tão mal que deixei de segui-los nas redes sociais. De certa forma, esse climão todo me fez ficar decepcionada com uma das poucas revistas que eu ainda lia, e me fez pensar na representatividade da mulher asiática nesses veículos: analisando, nunca me senti um pingo que seja representada por nenhuma revista feminina brasileira. Raramente se lembram de nós quando o editorial é de maquiagem, para dar um exemplo. Afinal nossos "olhinhos pequenos" não são e nunca serão padrão estético, but, who cares, né mesmo? 
Sei que pode parecer besteira para quem vê de fora, mas é como dizem: só quem sofre é quem pode dizer.

Porém a falta de representatividade dos asiáticos não se resume somente em não se encaixar em padrão de revista rasa de moda. Aliás, é tanta coisa, que poderia ficar horas dissertando, mas enfim... vamos para mais exemplos práticos.

Meses atrás, o anúncio da novela "Sol Nascente" - atualmente exibida pela Rede Globo - causou o maior burburinho na comunidade Nippo-brasileira pelo fato de que o personagem japonês da trama não seria interpretado por um ator asiático. E que ao meu ver, foi a gota d'água que faltava para transbordar e o assunto ganhar destaque e vários grupos de cultura asiática começarem a fazer barulho. 

Sol Nascente


A escolha do ator Luis Melo no lugar do japonês Ken Kaneko - a princípio, cotado para o papel - foi o maior fator surreal. Nada contra o ator, mas poderíamos ser coerentes com a proposta original, certo? Ou então era melhor nem ter perdido tempo...

Alice e Kazuo Tanaka - Sol Nascente


A justificativa veio do próprio autor da trama, Walter Negrão. Em uma entrevista ao jornal "Folha de S. Paulo" se justificou: "Era um personagem muito importante para colocar com um principiante ou alguém que não tenha a tarimba. Não tinha ator."

Claro. No Brasil não existem atores orientais. Imagina! 

E essa não foi a primeira bola fora da emissora com orientais. Quem não se lembra do - pseudo - coreano da novela "Geração Brasil"? 

Shin-Soo - Geração Brasil


Analisando isso, o que mais esperar da Globo, né? 

Na triste realidade, a representatividade asiática na televisão brasileira nunca deixou de ser estereotipada: os mesmos tipos ridicularizados, mulheres fetichizadas e as velhas piadinhas de sempre: devo confessar que sempre achei desnecessário o jeito que o Serginho Groisman grita "JAPÃO" no Altas Horas. 
E sendo sincera, da minha parte como consumidora de novelas da tal citada emissora, me senti ofendida sim com "Sol Nascente" que nem o crush que tenho pelo ator Rafael Cardoso me faz ter vontade de assisti-la, abafa o caso, hahaha

Mas no final, pode ser que eu tenha exagerado e dramatizado demais sobre o assunto... Afinal, hoje em dia tudo é motivo pra mimimi não é mesmo? 

2 comentários:

  1. Tathy, você disse tudo o que eu sinto desde pequena. Acho que nunca comentei nem nas redes sociais nem no meu Empório (sei lá, não sou muito de expôr esse lado particular da vida), mas vou confessar: sim, sofri MUITO o chamado atualmente bullying em toda a minha vida escolar, só salvou na faculdade porque era uma diversidade tremenda e ninguém tinha tempo de ficar zoando da pessoa. Do curso, até a gente zoava (fiz Exatas, me julguem). Mas do primário até o Magistério, passei por coisas que nem melhor eu puxar pela memória que senão piora e só superei quando fui pra Unesp mesmo. Porque imagine morar numa cidade onde a quantidade de famílias de descendentes asiáticos dá uma mão.
    Outra coisa que me deixou muito chocada, foi na época do boom dekasegi (1990 por aí). Teve cara que antes zoava comigo, veio bater na porta de casa pra me pedir em casamento. Obvio que mandei ir passear. Sem falar que teve outro que queria casar comigo por contrato so pra ir ao Japão! Olha o que a gente teve que ouvir.
    Tathy, não é mimimi não sobre o seu texto, porque muita gente só fica achando que racismo é só com os negros e ponto. Esquecem das outras etnias. Até nacionalidades. Inclusive, onde eu trabalho, tem latino que discrimina o outro só porque um é de tal país e outro do outro e aí vai.
    Serião, eu não sabia que no Brasil, os asiáticos estão tão mal representados na mídia em geral (como revistas e TV). E depois tem muita gente aí que tá doido pra vir pro Japão... Nao generalizemos, claro, sei que tem muita gente que quer vir porque realmente gosta, mas têm uma boa parcela que é pra zoar e depois voltar xingando.
    Pior que aqui eu vejo muito disso.

    Parabéns pelo textão, Tathy, traduziu exatamente o que sentimos sobre isso e ninguém liga a minima.

    Beijao! (^3^)

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  2. Hoe, Tathy-chan! Tudo bom? :)

    Opa! Conseguiu escrever o texto sobre a representatividade, muito bacana!

    Poxa, lamento muito pelas experiências tristes por que você passou, miga! D: Eu nem cheguei perto de sofrer esse tanto quanto imagino que você (e a Kiyomi-chan) tenha sofrido... Mas fico feliz por você ter conseguido a ajuda necessária!

    É frustrante perceber como os asiáticos são pouco representados nas mídias e, quando o são, assumem um papel mega estereotipado: nerd/idiota ou hiperssexualizado. Eu não sei se foi assim para você, mas considero que foi mega importante para a minha identificação na infância dois momentos: a chegada dos animes e live-action pela Rede Manchete, e o filme "Mulan". "Um asiático poder ser protagonista de suas próprias histórias? Que demais, eu posso ser isso!" Nesse quesito, ainda me considero sortuda, mas fico imaginando o que a geração de crianças asiáticas no Brasil pensa agora, com representatividade quase nula em materiais dedicados ao público infantil...

    Sobre o racismo ser relevado e/ou reforçado por algumas etnias, eu também fico possessa da vida! É como você disse, existe "apropriação" do racismo? Onde foi parar a empatia nessas horas?

    Pode ser que a carga histórica não seja a mesma que a dos negros, por exemplo, mas quem garante que os povos asiáticos não sofreriam o mesmo se tivessem vindo em outra época, ainda mais com aquela política toda de eugenia racial na história do Brasil? E se falarmos puramente em representatividade na mídia, a invisibilidade ou estereotipia está no mesmo nível, poxa!

    Por fim, no geral, estou farta das pessoas tratarem qualquer apontamento, reclamação ou começo de uma discussão saudável pelo como "mimimi", um código de silêncio e descrédito de vozes que têm problemas diferenciados em relação a uma grande massa padrão. Muitas pessoas querem pegar megafones para serem ouvidas, mas não levantam as orelhas para ouvir as outras - e isso cansa demais.

    Desculpe por pegar o box dos comentários para desabafar, mas agradeço pela oportunidade de o fazer, hehe! Parabéns pelo texto, Tathy-chan! ♥

    Beijos, flor~

    ResponderExcluir

Se você leu esse post até aqui, muito obrigada e espero que tenha gostado! Fique também a vontade se quiser deixar seu comentário, que terei o maior prazer em responde-lo.
Fico feliz com a sua visita. Obrigada e volte sempre! ^_^

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